BOLA. Uma das coisas que mais entretém as pessoas.

30 junho, 2006

A Lotaria dos Penaltis

Estive a ver o Alemanha-Argentina dos quartos de final e reparei num pormenor, já no desempate por grandes penalidades. Quando o Cambiasso se preparava para rematar tomou muito balanço, até saiu da área. E eu disse: "muito balanço, é para falhar". E ele falhou. Isto deixou-me a pensar naquelas coisas que por vezes acontecem nos desempates a partir da marca de 11 metros.
A coisa mais eficaz para enervar o cobrador do pontapé é quando o guarda-redes começa a jingar e a abanar-se. Foi assim em 1984, quando Grobbelaar, o excêntrico guardião do Liverpool, foi o herói do desempate na final da Taça dos Campeões frente à Roma. Mais recentemente, Dudek, também ao serviço dos reds de Merseyside, usou a mesma estratégia e deu outro caneco à equipa da cidade dos Beatles. Mesmo esta tarde, no penalti que Cambiasso falhou, o problema não foi só balanço a mais. Lehmann também andou aos saltinhos sobre a linha e enganou o argentino na perfeição. Chegou-se para a esquerda do cobrador e defendeu no lado direito.
Penso que nos tira-teimas por grandes penalidades a pressão está toda do lado de quem marca. O guarda-redes, em linhas gerais, precisa de ter um pouco de agilidade e escolher um lado, à espera que seja esse o lado certo. Hoje em dia, contudo, tem-se visto com muito mais frequência os guardiães explorar a pressão a que os marcadores estão sujeitos, através dos já referidos malabarismos. Muitas vezes com sucesso. E é um método muito mais eficaz do que ir à marca dizer duas ou três coisas a quem vai marcar ou, como também já vi, deixar-se ficar no meio à espera que um jogador desprevenido (ou amedrontado) chute para lá.

28 junho, 2006

Jogo sujo!? Nós!?

Depois daquele já famoso Portugal-Holanda, em que o árbitro deu 20 cartões, que resultaram em quatro expulsões, vários quadrantes no panorama internacional, como os ingleses, por exemplo, têm dito que os portugueses são peritos em fazer jogo sujo e têm muita falta de desportivismo. Óbvio que toda a Imprensa, e muita gente se sentiu indignadíssima com tais declarações. Claro que os portugueses não são nada disso, os estrangeiros estão a ser maus.
Mas vamos lá pensar um bocadinho... Em 1995 o Sá Pinto deu um soco no seleccionador e falou-se que houve prostitutas a aparecer no estágio da Selecção. No Euro 2000, depois daquela meia final com a França, Abel Xavier, Paulo Bento e Nuno Gomes vieram castigados. Já depois do também famoso Portugal-Angola que acabou antes do tempo, o João Pinto dá um soco no árbitro em pleno Mundial e vem também castigado, já para não falar do doping que o Kenedy acusou. Este ano o Sérgio Conceição é expulso num jogo do campeonato belga e decide atirar a camisola ao árbitro. Resultado: castigo. Na Alemanha o Ricardo Sousa anda sempre encostado porque tem dificuldades em aceitar as opções do treinador. Já para não falar do Odaír, que esteve no Penafiel em 05/06, castigado por agredir um árbitro, da eterna porrada entre o Paulinho Santos e o João Pinto nos Portos-Benficas dos anos 90, mais o Nuno Assis e o Pedro Neves que acusaram doping, e até podíamos falar do caso da camisola do Rui Jorge que o Mourinho supostamente rasgou e disse "devias morrer em campo". E ainda a porrada que deu nos jogos do Benfica na pré-época 2005, que incluíam invasões de campo e cinco seguranças a usar de dureza para travar... um homem que entrara em campo. Assim como alguns amigáveis de pré-época que acabam mal porque os jogadores se desentendem e o árbitro vê-se forçado a expulsar um ou dois jogadores e terminar aí o jogo. Enfim. E ainda achamos que temos muito fair play. O fair play morreu há já muito tempo.

PS: e ainda temos aquele famoso lance num Benfica-Sporting em 2002/03 (creio eu), em que o Benfica estava a perder 1-2 e o Zahovic decide levar o João Pinto ao colo para fora do campo para se perder menos tempo com a substituição. Deve ter havido troca de insultos, porque nisto vê-se o Zahovic a correr uns bons 60 metros, em sprint, para trocar uns galhardetes com o menino de ouro, que já ia quase nas cabines. Onde andas, fair play...?

20 junho, 2006

O Mundial dos Grandes

Ficou hoje completa a 2ª jornada da fase de grupos do Alemanha 2006. Já há apurados para os oitavos, outros já estão pelo caminho e outros jogam o tudo por tudo nos próximos dias.
Esta semana li na Imprensa um artigo que dizia que a FIFA está a proteger os grandes, através dos árbitros. E isso deixou-me a pensar. E pensei que os (poucos) penaltis que foram assinalados foram contra equipas ditas pequenas: Irão, Japão, Tunísia e Ucrânia, e especialmente o da Ucrânia deixou muitas dúvidas. Mas não quero ir por aí, que também houve o caso de uma bola que o guarda-redes da Coreia do Sul defendeu dentro da baliza - seria o 2-0 para a França - e o árbitro não viu.
O que me deixou ainda mais a pensar foi o Grupo E, onde se digladiam Itália, Rep. Checa, EUA e Gana. Na primeira jornada a Itália derrotou o Gana (2-0) num jogo em que a squadra azzurra sofreu a bom sofrer para chegar aos golos, e a Rep. Checa fez uma exibição deslumbrante ante uns EUA que deixaram muito a desejar. Até aqui nada de anormal.
Mas será que aconteceu algo da noite para o dia, que tenha feito o Gana jogar tão bem para derrotar os checos (2-0), após um vendaval ofensivo notável e até um penalti desperdiçado? Certamente que não. Assim como também me parece muito estranha a arbitragem do Itália - EUA (1-1), jogo em que os italianos não jogaram bem, tiveram um jogador expulso, e passado uns minutos foi a vez dos EUA verem não um, mas sim dois homens ir tomar banho mais cedo, isto após a Itália ter deitado fora dois pontos através de um auto-golo.
Curioso também o facto de estes quatro jogos terem sido todos arbitrados por sul-americanos, num grupo que cruza com o grupo do Brasil nos oitavos de final.
Isto leva-me a pensar: será que a FIFA achou que a Rep. Checa podia colocar a Itália no 2º lugar do grupo, o que criaria um Brasil-Itália logo nos oitavos de final? E para isso foi necessário ter um árbitro brasileiro no Itália-Gana que pareceu proteger muito os italianos? E que dizer da actuação do árbitro argentino do Rep. Checa-Gana, que deixou passar em claro inúmeras cargas e empurrões dos ganeses, além de ter assinalado um penalti muito duvidoso contra os checos, que resultou na expulsão do central Ujfalusi?
Para não falar do Togo-Suíça, em que um penalti claro sobre um jogador tologês foi ignorado pelo árbitro.
O lema da FIFA diz "para o bem do jogo", mas este jogo parece estar um pouco viciado, para o bem da FIFA, que espera ter todos os grandes nas fases adiantadas da prova, e assim rentabilizar da melhor forma o Mundial. Nada que se possa contestar, é certo, mas certas coisas têm o seu quê de esquisito, e estas subtilezas podem querer dizer alguma coisa.
Aguardemos pelos próximos jogos.

12 junho, 2006

Um reparo

Antes de dizer o que penso sobre o Alemanha 2006, há um reparo que é preciso fazer. Passamos meses a ouvir e a ler, a seguir a cada jogo da Selecção, que somos os maiores e que o Mundo vai estar a nossos pés, e outras coisas do género.
No primeiro jogo no Mundial, Portugal ganhou 1-0 a uma Angola que jogou pouco (e mal) e também não jogou nada de jeito. Se a Imprensa portuguesa fosse coerente, devia ter dado uma enorme ensaboadela a Scolari, Ronaldo e Cª Lda, pelo belíssimo jogo que fez, que em nada dignificou os brilhantes pergaminhos que, segundo a nossa Imprensa, Portugal tem.
Antes pelo contrário. Portugal fez uma partida intragável, mas toda a gente a comeu, se enjoou, e acabou a sorrir como se nada fosse, feliz da vida por uma vitória sem brilho e sem sabor.

07 junho, 2006

Os Incríveis de Portugal

A nível europeu Portugal é das equipas a quem acontece das coisas mais incríveis mais vezes. Não vamos começar por falar de Saltillo, que isso já foi há 20 anos e há muitos momentos incríveis de 1996 até hoje.
Vamos começar no dia 31 de Agosto de 1996 em Yerevan, na Arménia. Portugal jogava o primeiro encontro de qualificação para o Mundial'98. O jogo arrastava-se para o fim com um teimoso 0-0. Até que há um penalti a favor de Portugal. Oceano falha e Portugal, nove jogos depois, acaba a qualificação a um ponto do 2º lugar que daria acesso ao play-off.
Setembro de 1999. Azerbeijão-Portugal, a contar para o apuramento do Euro 2000. Portugal tinha ganho em casa 7-0. Perto do fim da primeira parte, a luz vai abaixo no estádio. Alguns minutos depois, a luz voltou, mas Portugal, indignadíssimo, recusou-se a continuar o jogo, ficando este adiado para o dia seguinte. Nos primeiros minutos da 2ª parte, o Azerbeijão marca, surpreendendo os incríveis portugueses! Os azeris quase que ganhavam, mas Figo, a minutos do termo, lá garantiu o empate, num jogo que poderia ter sido jogado no dia anterior, e quem sabe se Portugal teria ganho.
Mas Portugal até chegou à meia final desse Euro 2000. Em Bruxelas, contra a França, o jogo estava no prolongamento com 1-1. Nisto, há um cruzamento da direita do ataque francês, e Abel Xavier - esse, o da barba loira - desvia a bola para canto, caindo no chão em seguida. O árbitro marca penalti, grande sururu, jogadores a rodear o árbitro, e Zidane, alheio ao que se passava, ajeitava a bola na marca de penalti. Na repetição foi possível ver: Abel Xavier dera um toque subtil com a mão. Resultado: Portugal perdeu 2-1, Abel Xavier, Nuno Gomes e Paulo Bento foram castigados por uns meses por tentarem atacar o árbitro. Enfim... E lá foi Portugal, triste e cabisbaixo, à procura da glória perdida.
Em Novembro de 2001, Portugal jogou um amigável com Angola, que de amigável teve pouco. O jogo terminou aos 68', com 5-1 para Portugal, após quatro angolanos terem sido expulsos e um ter saído (supostamente) lesionado. Mas foi claro que a intenção era acabar por ali.
A glória surgiu com a qualificação para o Mundial 2002. Lá vamos nós! Mas foi um Mundial desgraçado... Logo nós que íamos ser (ou já éramos) campeões do mundo. Depois de Magriços, Patrícios e Infantes, eis que alguém nos nomeou Tugas. Ora bolas, Tugas!? Assim foi. A desgraça continuou com o jogo de preparação com a Finlândia, no Bessa, que Portugal perdeu por 4-1 e o Simão deu cabo do joelho, com o estágio de Macau, onde houve jogadores a reivindicar prémios de jogo isentos de impostos - o novo Saltillo - e o pobre Kenedy acusou doping e teve que voltar a Lisboa. No entanto, a final com o Brasil estava ali ao lado, não fosse os Estados Unidos se terem esquecido disso e posto a ganhar 3-0 ao fim de meia hora. Ciente do erro, Jeff Agoos ainda marcou na própria, e os famigerados Tugas fariam ainda o 3-2. Depois, uma vitória sobre a Polónia, e um jogo crítico com a Coreia a valer os oitavos de final.
E foi aí que os Portugueses voltaram a ser incríveis. Sem saberem bem se era preciso ganhar ou apenas empatar, por volta dos 25 minutos, João Pinto tem uma entrada dura e o árbitro Ángel Sánchez expulsa-o. Irado, o menino de ouro dá um soco na barriga do pobre árbitro. Ainda antes de se saber que João Pinto iria de castigo por uns meses, ao intervalo do jogo, ainda com 0-0, constou-se que Figo, o capitão Tuga, pediu aos coreanos para se deixarem empatar, porque o resultado convinha às duas equipas. Mas Figo já não domina muito bem o idioma coreano, e não se deve ter feito entender bem, pois a Coreia marcou mesmo, e seguiu triunfante até ao 4º lugar, acompanhada dos Estados Unidos, que levaram um banho de bola da Polónia (3-1), e mesmo assim passaram. À chegada a Pedras Rubras, houve barulho e insultos, mas os Tugas acabaram por ir para a cova da mesma maneira que apareceram: sem ninguém se aperceber, deixando para a posteridade um dos melhores Mundiais de sempre... nem a equipa que escreveu a Herman Enciclopédia se lembraria de uma história tão hilariante.
O texto já vai longo, mas ainda há dois momentos que vale a pena relembrar. O primeiro passou-se em Outubro de 2004, em Vaduz, capital do pequeno estado do Liechtenstein. Portugal jogava uma partida de qualificação para o Campeonato do Mundo, frente à equipa nacional de um pequeno Estado de 30 mil habitantes, a quem Portugal nunca vencera por menos de 5-0. Ao intervalo, Portugal vencia por 2-0, com um golo de Pauleta e um brinde de Hasler. Tudo parecia encaminhado para mais uma goleada, mas o incrível aconteceu. O Liechtenstein chegou ao empate!!! Em partidas oficiais (desde 1994), só por uma vez o Liechtenstein havia marcado dois golos. E lá houve júbilo, após esse empate histórico. Mas o (verdadeiramente) incrível Liechtenstein voltaria a atacar. 364 dias depois, em 8 de Outubro de 2005, Portugal tinha que vencer os simpáticos cavalheiros daquela equipa para se apurar para o Mundial. A coisa esteve preta, o Liechtenstein chegou ao intervalo a vencer por 1-0 (situação inédita, creio eu), mas o mais incrível não foi isto. Durante o primeiro tempo, num lance de insistência, com o guarda-redes Jehle nas covas, um jogador português remata para o que seria o 1-0... não fosse a reedição da famosa mão de Deus, mas ainda mais escandalosa que a de Maradona 19 anos antes... um defesa, que até nem era muito alto, salta, de braço erguido, e desvia a bola para canto. Penalti e expulsão? Não, nada disso! O árbitro, o senhor Gilewski, marcou efectivamente canto! Incrível. Só mesmo com Portugal. Os lusos venceriam, à rasca e sem brilho por 2-1, mas o Alemanha 2006 estava ali ao virar da esquina.
Faltam poucos dias para começar o Mundial. E quem sabe se Portugal protagonizará outros momentos incríveis para a colecção. O último Mundial foi pródigo em grandes momentos...

06 junho, 2006

Portugal no Mundial

Para começar, e porque o Mundial está aí, vou falar da presença de Portugal no Alemanha 2006. Portugal tem uma história que se vem a repetir década após década: depois de um excelente Europeu, o Mundial seguinte é um fracasso. Foi assim em 1984 e 1986 - meias finais do Europeu, depois o fiasco do México'86 - e voltou a ser assim em 2000 e 2002 - novamente meias finais do Europeu para no Oriente Portugal fazer a figura que fez.
Hoje, depois do segundo lugar no Euro 2004, aí vai Portugal jogar mais um Mundial, o quarto da sua história. Digo "mais um Mundial" porque de facto, este é mais um. A presença de Portugal nas fases finais já não é motivo para o júbilo por vezes exagerado que se vê na Imprensa e no próprio povo. A Selecção vai para a sua quarta presença consecutiva numa grande competição, definitivamente a melhor fase de sempre do futebol português. Por isso, perante um facto tão normal como o apuramento para uma fase final, para quê tanta expectativa e tanto empolamento, até mesmo falta de humildade?
A Imprensa tem vindo a criar expectativas muito altas, que no mais das vezes resulta num fracasso, como aconteceu em 2002. Creio que a Selecção já mostrou ter qualidades para fazer uma boa campanha. O que falta é ter a lucidez suficiente para perceber que o melhor é deixar a equipa jogar, e o que tiver que acontecer, acontecerá. Além disso, não é necessário fazer exigências do género "queremos a Taça", ou "venha a final com o Brasil". A minha opinião é a de que se deve definir um objectivo realista, e o que vier para além disso será bem vindo. Uma vitória reconhecida com humildade vale muito mais que uma derrota inesperada devido ao excesso de confiança.
Este empolamento excessivo da Selecção e a constante crença de sermos os maiores do mundo faz-me pensar uma coisa. Se temos uma Selecção tão boa, porque é que passamos a temporada inteira a ler nos jornais e a ver na televisão pessoas ligadas ao futebol a dizer que o nosso campeonato anda pelas ruas da amargura e que é preciso mudar tudo?
Durante três anos consecutivos, houve equipas portuguesas a jogar finais europeias, vencendo-as quase todas - nunca antes Portugal estivera representado nas finais da UEFA três anos seguidos. Todos os anos a Liga portuguesa permanece com incertezas na classificação até à última jornada. O que está mal, além da fraca qualidade de alguns jogos?
No meu entender são os dirigentes, que só pensam no bem próprio e não no interesse comum de construir um campeonato atractivo, que leve mais gente aos estádios. Mas, como estamos em época de Mundial, deixo a crítica à Liga Betandwin.com para quando a época começar, agora que até reduziram para 16 equipas.
Esperemos que este Mundial não seja como os outros, e que sejamos suficientemente realistas para ver que um bom Mundial é possível, e suficientemente humildes para perceber que para sermos os melhores não devemos exigir a Taça antes de jogar, mas sim compreender que tem de haver uma ascensão gradual. A ascensão na Europa está a correr bem. Agora falta convencer o Mundo.