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03 julho, 2006

Volta Diego!

A Argentina, pelas suas 15 participações em fases finais, nas quais se sagrou vencedora em 1978 e 1986, e vice-campeã em 1930 e 1990, tem que ser considerada favorita em qualquer prova que jogue. Ainda para mais quando a Argentina é um país que nutre uma paixão por vezes desmesurada pelo futebol e endeusa aquele que é, para muitos, o melhor jogador de todos os tempos: El Pibe Maradona. El Dios para os argentinos - ou D10s, se quiserem. O que é certo, porque para a história só contam os resultados, é que desde que Maradona se começou a preocupar com outras coisas que não o futebol, a albiceleste nunca mais conseguiu um Mundial convincente.
Em 1986 no México, a Argentina ganhou o Mundial pela segunda vez, com o brilho e a mestria que se reconhece aos campeões. O brilho irradiava de Burruchaga e Valdano. A mestria, essa, brotava dos pés de Maradona. Daí para a frente, foi a desgraça.
Em 1990 a Argentina chegou outra vez à final. No jogo decisivo a albiceleste perdeu com a RFA, na vingança de 1986, jogando, como leio numa revista da época, sem chama, sem coordenação, sem objectividade ofensiva, limitando-se a destruir o jogo adversário e à espera de mais um milagre de São Diego Maradona.
Nos Estados Unidos, no último Mundial de Maradona, ele até marcou um golo contra a Grécia, mas acusaria consumo de cocaína, sendo excluído da competição. A Argentina caiu nos oitavos frente à Roménia (2-3). Em França, com Verón, Crespo, Simeone, Batistuta e Ortega, entre outros, os argentinos eliminaram a Inglaterra nas grandes penalidades após 120 minutos muito intensos, e perderam para a Holanda nos quartos de final (1-2).
Contudo, a Argentina tocaria no fundo em 2002, ao não passar dos grupos, depois de uma vitória sobre a Nigéria (1-0), derrota com a Inglaterra (0-1) e empate com a Suécia (1-1). Um povo chorou a eliminação, mas vibrou com uma brilhante qualificação para 2006, na qual a Argentina de Pekerman se revelou dominadora e com boas perspectivas de recuperar a glória perdida.
De facto, as perspectivas para os argentinos eram muito boas. Riquelme é considerado o melhor nº10 da actualidade, Messi é um talento em fase de explosão, Tévez é um perigo, apesar da inconstância, e ainda há Ayala, Sorín, Lucho González e Aimar para qualquer emergência. Viram-se lampejos da grande Argentina de há 20 anos na primeira parte do jogo com a Costa do Marfim e na goleada à Sérvia-Montenegro. Depois das poupanças com a Holanda, um jogo tipicamente sul-americano com o México, resolvido com um golo esplendoroso de Maxi Rodríguez, e mais uma desilusão, novamente frente à Alemanha, com Ayala e Cambiasso a falharem a conversão no desempate desde a marca de 11 metros.
Antes de começar o Mundial, dizia-se que a Alemanha era um gigante adormecido. Mas parece que a história é bem diferente. O verdadeiro gigante adormecido é a Argentina, que aparenta sempre ter grandes hipóteses mas chega à hora H e falha. Nos últimos 20 anos a albiceleste venceu a Copa América em 1991 e 1993 e a Taça das Confederações em 1992. Na final da edição de 2005 desta última prova, o Brasil demoliu os seus rivais sul-americanos por 4-1, e um ano antes, no Peru, roubaram a Copa América aos argentinos no desempate por grandes penalidades.
A Alemanha parece acordar sempre que o Mundial bate à porta, mas a Argentina está num sono profundo desde que Maradona ergueu a taça na Cidade do México. Um sono com muitos sonhos, mas que teima em não despertar, nem com a presença de El Pibe na bancada.