Mais um Mundial que termina, desta vez com a vitória da Itália, 24 anos depois do último título. Mas este Mundial não vai deixar saudades, pelo menos entre quem gosta de futebol espectáculo. A maior parte dos jogos foram defensivos, por vezes mal jogados, com as equipas a demonstrar medo de arriscar. Salvo algumas excepções, claro, mas já lá vamos. Isto é o reflexo do negócio em que o futebol se tornou, em que o importante é não perder.
Mesmo assim, como em todos os Mundiais, sobram bons momentos que se adicionam à rica história da prova mais apetecida do futebol mundial.
Para já, vamos escolher os mais e os menos de um mês de futebol em terras germânicas.
MELHOR FUTEBOL:
GANA: Parecia que tinham posto uma dúzia de pães dentro das balizas, tal era a vontade com que os
black stars atacaram em todos os jogos. Com a Itália, mesmo a perder 2-0, o ataque foi uma constante. Com os checos foi uma enxurrada atacante como há muito não se via. Tal repetiu-se com o Brasil, que só não perdeu por manifesta falta de sorte dos ganeses, que assustaram (e muito o
escrete).
ALEMANHA: mesmo com a tremideira a assaltar a defensiva em variadas ocasiões, e mesmo um pouco atabalhoada em alguns jogos, a Alemanha mostrou ter uma equipa de futuro, que sabe o que quer em campo, proporcionando jogos em que a baliza contrária era o objectivo principal. Infeliz na meia-final com a Itália, a Alemanha foi das equipas que apresentou o futebol mais atractivo.
EQUIPA DE FUTURO: Suíça. Terminou o Mundial nos oitavos de forma inglória, nos penaltis, sem sofrer qualquer golo em quatro jogos. Promete ser uma equipa mais matura em 2008, quando jogar o europeu em casa, estando a germinar talentos como Senderos e Barnetta, além de ter um avançado goleador, Frei. A Suíça é hoje a maior ameaça para o futuro. Mas Portugal também parece ter um futuro auspicioso à sua frente. Figo e Pauleta saíram, mas estão lá Quaresma, Cristiano Ronaldo, Raul Meireles, Hugo Viana, mesmo Zé Castro à espera da sua oportunidade de
pegar de estaca. Devemos ouvir falar muito de Portugal nos próximos anos.
A DEFENDER: Portugal, Itália e França, mais que a Suíça. Estas três equipas sabem defender como ninguém, fechando muito bem os caminhos das suas balizas.
MELHOR JOGADOR: Não creio que tenha havido úm jogador a destacar-se sobre todos os outros. Houve, isso sim, vários que deixaram a sua marca:
Cannavaro (Itália): uma parede a defender. Um dos principais motivos por que a Itália venceu a competição.
Zidane (França): depois de ter estado apagado nos grupos, renasceu na fase a eliminar, para conduzir a França até à final. Aos 34 anos, demonstrou uma classe notável. Pena aquela marrada no italiano na final, nada digna de um jogador da grandeza de
Zizou.
Kawaguchi (Japão): O guarda-redes japonês, mesmo elimindo na primeira fase, defendeu um penalti contra a Croácia e efectuou grandes defesas em todos os jogos, impedindo muitos golos contra os nipónicos. No seu primeiro Mundial a titular, cotou-se como um dos melhores guardiães do torneio.
João Ricardo (Angola): O mesmo que Kawaguchi, mas com muito mais trabalho. Defesas para todos os gostos da parte de um guarda-redes sem clube, e que terminou a carreira da maneira que menos esperava: a defender o seu país num Mundial.
Maxi Rodríguez (Argentina): a revelação da
albiceleste. Batalhador, oportuno, assinou um golo de bandeira contra o México.
Ricardo Carvalho (Portugal): um mestre a defender. Fez cortes fantásticos em todos os jogos, contribuindo para a eficácia defensiva de Portugal. Sem ele, a Alemanha marcou três golos no jogo de consolação.
Miguel (Portugal): Excelente lateral, com garra e pulmão, defendeu muito e ainda teve tempo de atacar, muitas vezes com perigo.
Haveria espaço para mais, se me ocorrer mais algum, um texto futuro reparará o esquecimento.
PIOR JOGADOR:
Crouch (Inglaterra): É grande, mas não é grande coisa. Muito alto, mas muito desajeitado, precisa de falhar 10 bolas até marcar um golo. Rooney deve ter levado as mãos à cabeça nos jogos em que o gigante o substituiu.
Pauleta (Portugal): o melhor marcador de sempre da Selecção portuguesa, com 47 golos, 90% dos quais contra adversários mais fracos que o Kuwait e Cabo Verde (ou quase). Neste Mundial marcou aos 4' do primeiro jogo, contra Angola e depois... pouco mais que uma nulidade.
SURPRESA: a Ucrânia. Depois de ter sido goleada na primeiro jogo (4-0 com a Espanha), chegou mais longe que
nuestros hermanos. No jogo dos quartos de final com a Itália, só baixou os braços quando os Italianos fizeram o 3-0. Deixaram boa imagem na estreia.
DESILUSÃO: Espanha. Esperava-se mais, bastante mais, assim como se esperava mais da Argentina, que mais uma vez falhou. É como eu disse no outro texto, volta Diego! E o Irão também desiludiu... tanta expectativa, tantas manifestações que se iam fazer à volta da equipa iraniana e, no final... apenas um ponto. Karimi, o
Maradona da Pérsia, apareceu como o verdadeiro Maradona: em queda. Pode ser que em 2010 recupere. E, claro, o Brasil, o crónico favorito, apontado por todos como o virtual bicampeão Mundial (para os brasileiros é hexa). O chamado
quadrado mágico não funcionou, Ronaldo estava gordo, Ronaldinho apagado, Robinho nem se viu. Pois... restou ficar nos quartos de final e deixar um povo com os nervos em frangalhos e a clamar, imagine-se, por Scolari, o (então ainda) Campeão do Mundo que deu o 4º lugar a Portugal.
Foi bonito ver a festa que os quatro primeiros classificados (Itália, França, Alemanha e Portugal) fizeram para receber as suas equipas no final da prova. O que mostra que nem só os vencedores merecem ser carregados em ombros. Até a Argentina fez festa aos seus heróis, mesmo eliminados nos quartos. Assim como houve festa em Angola, em Trinidad e Tobago e no Gana. E aqueles que mais festas fazem, os mestres da arte de festejar, os alegres brasileiros? Bem... esses é diferente. Se ganham ninguém os cala... se perdem, toca a malhar em toda a gente, desde o treinador até ao roupeiro. Pois... foi mais ou menos isso que aconteceu.
ARBITRAGEM: 20 cartões (16 amarelos e quatro vermelhos por acumulação) num único jogo, recorde dos Mundiais, Simunic a ser expulso por acumulação de três (!!!) (isso mesmo, três) cartões amarelos... chega! É melhor não falar mais de arbitragem. Foi triste... e é melhor não discutir penaltis. Sr Blatter, tenha vergonha na cara, e em vez de vir falar espanhol para os canais portugueses, veja se aprende a escolher árbitros.
MELHORES JOGOS:
Coreia do Sul-Togo: pelo menos houve futebol ofensivo, se bem que não tenha sido sempre bem jogado.
Portugal-Holanda: milho basto, cartões bastos, um jogo à moda antiga. A B
atalha de Nuremberga.
Jogos do Gana: espectáculo garantido (e falhanços também)
Espanha-França: muita emoção e incerteza no marcador, pelo menos até o árbitro inventar a falta de que resultou o 2-1 para a França.
Itália-EUA: expulsões, auto-golos, incerteza no marcador, um jogo de Mundial à moda antiga a nível de emoção.
Enfim... podia estar aqui horas a escrever, mas já chega. Depois pode ser que escreva outras coisas sobre o Mundial 2006. O que é certo é que em 2010 há mais.