CAN 2008 - A Retrospectiva
A 26ª edição da Taça das Nações Africanas, disputada no Gana entre 20 de Janeiro e 10 de Fevereiro, foi um torneio diferente de outros recentes certames internacionais de Selecções. A competição proporcionou algo que os últimos eventos internacionais só a espaços conseguiram oferecer. Algo cada vez mais raro, e que dá pelo nome de futebol atractivo.Tal pode parecer estranho quando se fala de uma prova africana, mas a verdade é que deu mais gozo assistir a encontros como Guiné-Marrocos ou Senegal-Angola, do que a vários jogos do último Mundial, teoricamente mais aliciantes.
Naturalmente que o futebol nem sempre foi bem jogado, e a bola era muitas vezes movimentada aos repelões, mas praticamente todas as equipas explanaram um futebol com um simples propósito: chegar à baliza adversária – no fundo, isso é meio caminho para marcar golos.
E é exactamente esse aspecto o primeiro que salta à vista. A CAN 2008 foi um festival de golos, muitos deles de belo efeito. O total cifrou-se nuns redondos 100 tentos, à média de 3,125 por jogo (contra os 2,25 do Mundial’06 e os 2,48 do Euro’04). Apenas duas partidas terminaram sem golos, sinal da tendência ofensiva da prova, que ainda assim ficou aquém da última Copa América, que registou uma média de 3,3 golos por encontro. A apetência pelo ataque fez com que apenas um encontro necessitasse de tempo extra – o Tunísia-Camarões (2-3) dos quartos de final.
O título ficou, pela sexta vez, segunda consecutiva, nas mãos do Egipto. Numa região tradicionalmente difícil para as equipas do Norte de África – que o digam a Tunísia e Marrocos, que passaram ao lado –, os faraós contrariaram as previsões que apontavam a Costa do Marfim como mais forte candidata ao triunfo final. Com um plantel desconhecido para a maioria dos europeus, mas fortíssimo no panorama africano, o Egipto foi uma equipa que usou como principal arma a sua sólida defesa, personificada no guardião Essam El Hadary, que fez uma série de espantosas defesas na meia final. O objectivo seguinte do Egipto é, sem margem para dúvidas, atingir a fase final do Mundial pela segunda vez, depois de ter competido em Itália, em 1990. O Mundial é a grande pecha de um Egipto bem reputado em África.
A retrospectiva segue agora por tópicos:
MELHOR EQUIPA: Costa do Marfim. Finalistas vencidos em 2006, no Cairo, os elefantes eram, como já se disse, os principais candidatos a levar a taça para casa, e provaram-no até à meia final. Venceram todas as partidas da fase de grupos (Nigéria, Benim e Mali), e demoliram uma defensivamente distraída, mas traiçoeira Guiné nos quartos de final (5-0). Até que chegou o Egipto, na reedição da final de há dois anos. E novamente os egípcios levaram a melhor, desta feita por um expressivo 4-1 que não deixou quaisquer dúvidas no ar.
A DESILUSÃO: Incrivelmente, a desilusão dá pelo mesmo nome da melhor equipa. Os marfinenses podem ter praticado o melhor futebol, mas a copiosa derrota nas meias finais não estava nos planos, muito menos por um resultado tão folgado. No jogo de consolação a história repetiu-se, com os anfitriões a vencerem por 4-2. Simples percalço, ou os oito golos sofridos em dois jogos indicam o final de um ciclo positivo para a Costa do Marfim. Di-lo-á o tempo.
A EQUIPA ANFITRIÃ: O Gana apostava forte em ir longe, mesmo sofrendo um revés com a ausência do médio Stephen Appiah. Depois de contar por vitórias os desafios da fase de grupos, os black stars deitaram por terra as ambições nigerianas (2-1), antes de perder, num jogo tenso, contra os Camarões (0-1), na meia final. O Gana tem uma das equipas mais consistentes de África, mas tal não foi suficiente para vencer a CAN pela quinta vez no seu historial.
PIOR EQUPA: O Sudão, a par do Benim, não somou pontos, mas pior que isso, nem sequer marcou golos. Três derrotas, todas por 3-0, deixaram o Sudão sem motivos para recordar a visita ao Gana. Desde 1976 que o Sudão não se qualificava para uma fase final.
O PÚBLICO: Como de costume, esteve à altura. Caras pintadas, roupas berrantes com as cores nacionais, artefactos estranhos como chapéus e óculos que só em África se encontram, muita dança e alegria, galinhas vivas (!), e uma constante música ao melhor estilo da claque do Marítimo a acompanhar cada jogo. Loucura? Nada disso, tudo isto é normal quando se fala da CAN. O público portou-se melhor que certos jogadores, como é o caso do camaronês Andre Bikey (que passou pela Académica), que na meia final, sem motivo aparente, deu um valente empurrão num dos maqueiros que esperavam para levar outro camaronês para fora do campo, e foi imediatamente expulso.
OS ÁRBITROS: Sem grandes falhas a apontar. Tiveram um trabalho mais firme e bem desempenhado que no Mundial 2006, em que as críticas aos homens de negro foram abundantes.
JOGADORES EM DESTAQUE:
Manucho (Angola). Recente contratação do Manchester United, agora emprestado ao Panathinaikos, o avançado marcou quatro golos e formou com Flávio uma perigosa dupla de ataque. A explosão de Manucho está marcada para a CAN 2010, que terá lugar precisamente em Angola, meses antes do Mundial, um pouco mais abaixo na África do Sul. Em boa hora, dirão os angolanos, que vêem a sua equipa começar a ser cotada como potência da África austral.
Kemoko Camara (Guiné). É verdade que o guarda-redes guineense sofreu cinco golos no jogo dos quartos de final, mas durante a fase de grupos cotou-se como um dos mais seguros guardiães do torneio. Ainda assim, um pouco mais de concentração não faria mal a Kemoko, que aliás, se encontra sem clube.
Zaki (Egipto). O possante avançado do Zamalek emprestou raça ao ataque dos agora bicampeões africanos, e apontou três golos durante a prova.
Agogo (Gana). Grande parte dos seus colegas de equipa alinham em clubes dos melhores campeonatos europeus. Junior Agogo representa o Nottingham Forest, das divisões secundárias inglesas, mas foi a referência do ataque ganês, pela sua envergadura.
OS “PORTUGUESES”: Angola ajudou ao aumento do número de representantes do futebol português, tanto na CAN, como no Alemanha’06. Seis angolanos a actuar em Portugal estiveram no Gana, a saber: Marco Airosa (Olhanense), Dedé e Edson (P. Ferreira), Mendonça (E. Amadora), Zé Kalanga (Boavista), e Machado (Anadia). Mas não só. Oumar Tchomogo (Portimonense, Benim), Augustin Binya (Benfica, Camarões), Marc Zoro (Benfica, Costa do Marfim), Tarik Sektioui (FC Porto, Marrocos), Ousmane N’Doye (Académica, Senegal) e Modou Sougou (Leiria, Senegal) também fizeram uma pausa nas lides da Liga Bwin para estar no Gana.
E para terminar, uma novidade. O Estádio Ohene Djan, em Accra, tinha um carro-maca pronto a entrar em campo. Nada de estranho até aqui. O pormenor curioso, é que o veículo tinha uma espécie de tejadilho, sobre o qual repousava um pirilampo como em qualquer ambulância! Não encontro precedentes nos vários carros-maca do futebol internacional. A CAN é uma prova única no futebol mundial, e ainda há quem diga que devia ser disputada de quatro em quatro anos, e não a cada dois, como actualmente. O próximo encontro está marcado para Angola, dentro de dois anos.

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